O aniquilacionismo e a destruição eterna

 


2Tessalonicenses 1:9 ARA

[9] Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder,

Sem sombra de dúvidas, este é um dos textos favoritos de quem professa a fé aniquilacionista. Esse fato se deve pelo texto, aparentemente, falar o que esse povo tanto propaga. Para eles, o versículo estaria falando de uma destruição eterna em consequências. O “em consequências” fica na conta dos mortalistas, já que o texto não diz isso. Mas o que realmente Paulo quer dizer com essas palavras? Estariam nossos amigos corretos teologicamente?

Antes de qualquer coisa, é bom deixar claro que em nenhum momento Paulo cria em uma interpretação divorciada do que pregou Jesus, que é o ímpio ser destinado ao sofrimento (Mt 13:41-42 e 25:46). Isso está claríssimo no próprio contexto imediato:

2Tessalonicenses 1:3-7 ARA

[3] Irmãos, cumpre-nos dar sempre graças a Deus no tocante a vós outros, como é justo, pois a vossa fé cresce sobremaneira, e o vosso mútuo amor de uns para com os outros vai aumentando, [4] a tal ponto que nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus, à vista da vossa constância e fé, em todas as vossas perseguições e nas tribulações que suportais, [5] sinal evidente do reto juízo de Deus, para que sejais considerados dignos do reino de Deus, pelo qual, com efeito, estais sofrendo; [6] se, de fato, é justo para com Deus que ele dê em paga tribulação aos que vos atribulam [7] e a vós outros, que sois atribuladosalívio juntamente conosco, quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder,

Em outras palavras, o que sugere Paulo é que, na vinda do Senhor, quem está em tribulação terá descanso; e quem causa tribulação entrará em sofrimento. Isso soa mais com tormento do que extinção, não é verdade?

O mesmo podemos ver na primeira carta, já que a mesma palavra grega (ὄλεθρος/oletros) para destruição é usada em relação aos desobedientes:

‭1Tessalonicenses 5:3 ARA‬

[3] Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão. 

Note que essa repentina destruição está associada à dor, e não à extinção como sugerem nossos amigos. Não esqueçamos que sofrimento é frequentemente comparado à dor de parto nas Escrituras (Mt 24:8). Logo, o que sugere o contexto imediato é que enquanto os que sofrem terão conforto, os opressores entrarão em sofrimento, ideia idêntica à proposta na segunda epístola.

Uma problema na tradução que incomoda a muitos 

É bom sabermos que embora a maioria das traduções afirmarem que a destruição eterna seria longe da face de Deus, tudo parece indicar que a melhor versão seja a King James:

2Tessalonicenses 1:9 KJV

[9] Estes sofrerão penalidade de eterna destruição da face do Senhor e da glória do seu poder,

A Almeida Corrigida Fiel também traz a mesma ideia, embora traduza "oletros" de uma forma diferente:

2 Tessalonicenses 1:9 ACF

9 Os quais, por castigo, padecerão eterna perdição, ante a face do Senhor e a glória do seu poder,

Explicando melhor, a destruição perene seria causada pela face e glória do seu poder, ou seja, pela própria vinda de Jesus. Embora pareça uma perspectiva estranha e pouco conhecida, o contexto posterior e anterior fornecem base para esta tradução. Por exemplo, mais à frente a carta afirmará:

2Tessalonicenses 2:8 ARA

[8] então, será, de fato, revelado o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca e o destruirá pela manifestação de sua vinda.

É claro que o verbo grego do capítulo 2 (καταργέω) não é o mesmo para destruir do capítulo 1 (ὄλεθρος), porém ambos trazem a mesma ideia ligada à manifestação de Jesus. E da forma como mencionei anteriormente, o contexto anterior, que inclusive já foi citado, mas farei questão de repetir, também fortalece a tradução da KJV:

1Tessalonicenses 5:1-3 TB

[1] Mas, acerca dos tempos ou das épocas, irmãos, não tendes necessidade de que se vos escreva; [2] porque vós mesmos sabeis perfeitamente que o Dia do Senhor virá como um ladrão à noite. [3] Quando disserem: Paz e segurança, então, lhes sobrevirá repentinamente destruição, como as dores a uma mulher que está para dar à luz, e de modo nenhum escaparão.

Como nós sabemos, as duas cartas aos tessalonicenses foram escritas pelo mesmo autor: Paulo. E como se não bastasse, tanto no capítulo 5 de sua primeira carta quanto no 1 da segunda é o mesmo termo relacionado ao dia do Senhor: ὄλεθρος/destruição. Ou seja, isso só fortaleceria a perspectiva da KJV, pois fala de uma destruição repentina.

Agora o argumento gramatical

Além do prova contextual, farei uma análise do termo ἀπό/apo, que é muitas das vezes vertidos por “longe”, “banidos” ou outra palavra relacionada à separação. É uma verdade que essa preposição grega traz esse significado. Todavia há ocorrências em que ela traz também o conceito de origem

Mas vejamos todos outros usos da preposição por Paulo na epístola, não é mesmo? Na Segunda Carta de Paulo aos Tessalonicenses, a preposição grega "ἀπό" (apo) aparece em vários lugares, dando a ideia de origem ou simplesmente podendo ter como tradução a preposição "de". Em 2 Tessalonicenses 1:2, ela expressa a procedência da graça e paz que vêm "de (apo) Deus Pai" e "do Senhor Jesus Cristo". Em 1:7, descreve a manifestação de Jesus "do  (apo)  céu", apontando sua origem local. Em 2:2, exortando os leitores a não se desviarem "do (apo) entendimento" devido a falsos ensinos. Por fim, em 3:2, Paulo fala da libertação dos crentes "dos (apo) homens perversos e maus".  Como o dicionário Strong declara, "'apo' geralmente significa a fonte ou causa de uma ação, o ponto de partida de uma jornada ou a separação de um estado ou condição particular", o que se alinha perfeitamente com todos textos acima e, porque não dizer, com 2 Tessalonicenses 1:9. Será que apenas o caso em questão tem uma tradução diferente? Tenho meus questionamentos!

Salmos 68:2 ARC

[2] Como se impele a fumaça, assim tu os impeles; como a cera se derrete diante do fogo, assim pereçam os ímpios diante de Deus

Não é difícil concluir que nem mesmos os aniquilacionistas mais radicais aceitarão uma destruição eterna em consequências causada pela face e glória de Jesus. Porque se for este o caso, como ficaria por exemplo os textos abaixo em que aborda um diálogo de Cristo com os ímpios?

Mateus 7:22-23 TB

[22] Naquele dia, muitos hão de dizer-me: Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? [23] Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade.

Será que Jesus fará uma destruição eterna em consequências na sua vinda e depois ressuscitará novamente esse povo para a destruí-lo novamente após o julgamento do trono branco? Mas se será ressuscitado após o milênio, então não será uma destruição eterna em consequência, mas  temporária, não é mesmo? Há certas interpretações que nem mesmo quem as defende consegue compreendê-las, não é mesmo?

Talvez um testemunha de Jeová aceitará a tese de uma destruição eterna em consequência causada pela vinda de Jesus. Acredito que elas provavelmente dirão que os adoradores da besta serão completamente aniquilados na vinda de Jesus, e não ressuscitarão mais após o milênio.  Todavia, isso carece de uma análise correta da Bíblia. Por exemplo, as Escrituras são enfáticas em afirmarem que os servos do Anticristo serão castigados no lago de fogo (Ap 14: 9-11). E como o texto deixa claro, somente a besta e o falso profeta são lançados nele antes do milênio (Ap 19: 19-20). Logo, só resta a passagem abaixo como cumprimento de Apocalipse 14:9-11, que se encontra num contexto pós-juízo do trono branco:

Apocalipse 20:15 TB

[15] Se alguém não foi achado escrito no livro da vida, foi lançado no lago de fogo.

E não há nada ruim que não possa piorar. O Senhor destruirá os ímpios na sua vinda pelo assopro de sua boca (2 Ts 2:8), pela sua glória (2 Ts 1:9) por espada e fogo (Is 66:15,16) ou por meio de sua Palavra? Como você mesmo ver, cada texto traz uma derrota por meios diferentes. Se você prestou atenção, só para o filho da perdição, há dois meios (pelo assopro e pela resplendor da sua vinda).  Será que alguma alma vivente terá coragem de afirmar que Jesus matará o Anticristo pela sua vinda e depois o ressuscitará para matá-lo pelo sopro? Acho que não.

Não é preciso ser uma pessoa inteligente para ver que essas cenas da segunda carta aos tessalonicenses (principalmente do assopro) são apenas figuras de linguagem para ilustrar a grandeza do poder de Jesus, o qual derrota facilmente até aquele que se levanta contra tudo o que se chama Deus (2 Ts. 2:4). Diante da majestade do Rei dos reis, todo poder oposto é trucidado repentinamente e e eternamente.

O termo grego ὄλεθρος, segundo o dicionário Strong,  pode significar destruição, morte ou até ruína e perdição. E é claro que, biblicamente, destruição não se resume à extinção, como muito irmãos podem sugerir. Por exemplo, todos sabemos que a besta e o iníquo são o mesmo indivíduo, e tanto Paulo quanto João descrevem o seu destino com o mesmo termo grego (πλεια/apoleia), que assim como ὄλεθροςpode significar destruição, morte, perdição ou ruína:

2Tessalonicenses 2:3 ARA‬

[3] Ninguém, de nenhum modo, vos engane, porque isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da πλεια

Apocalipse 17:8 ARA‬

[8] a besta que viste, era e não é, está para emergir do abismo e caminha para a πλεια. E aqueles que habitam sobre a terra, cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida desde a fundação do mundo, se admirarão, vendo a besta que era e não é, mas aparecerá. 

Mas como o próprio João deixa explícito, independentemente da forma como você traduz o termo grego, a πλεια da besta (e também do iníquo) é um sofrimento infindável no fogo:

Apocalipse 20:10 ARA‬

[10] O diabo, o sedutor deles, foi lançado para dentro do lago de fogo e enxofre, onde já se encontram não só a besta como também o falso profeta; e serão atormentados de dia e de noite, pelos séculos dos séculos. 

Um fato curioso é que, na própria literatura extrabíblica do primeiro ou início do segundo século, a mesma expressão de Paulo é usada no sentido de tormento eterno:

 10. "Nós, tirano abominável, estamos sofrendo por causa de nosso treinamento piedoso e virtude, 11 mas você, por causa de sua impiedade e sede de sangue, sofrerá tormentos incessantes ."12 Quando ele também morreu de maneira digna de seus irmãos, arrastaram o quarto, dizendo: 13 Quanto a você, não ceda à mesma insanidade que seus irmãos, mas obedeça ao rei e salve-se. 14 Mas ele lhes disse: "Vocês não têm um fogo quente o suficiente para me fazer bancar o covarde. [1] Não, pela morte abençoada de meus irmãos, pela destruição eterna (ὄλεθρος αἰώνιος) do tirano, e pela eterna vida dos piedosos, não renunciarei à nossa nobre irmandade. (4 Macabeus 10:10-15)

 Não temamos aquele que pensa que nos está matando, pois grande é a disputa da alma e o perigo do tormento eterno que está diante daqueles que transgridem o mandamento de Deus. (4 Macabeus 13:14,15).

É verdade que podemos sugerir para ὄλεθρος a ideia de morte, já que o lago de fogo, destino da besta que vai à πλεια também é (Ap 21:8). Essa ideia também tem apoio no pano de fundo de Paulo, Isaías 66:15 e 16, texto que retrata Deus vindo em carruagens e espada matando os inimigos, além do contexto imediato, que relata o Senhor matando o anticristo com o seu sopro, e essa morte é o sofrimento no lago de fogo (Ap 19:20 e 20:10 e 14). O termo grego ὄλεθρος só aparece quatro vezes no Novo Testamento (I Co 5:5, I Tm 6:9 e as outras passagens citadas anteriormente). Entretanto, o mesmo radical da palavra é usado no sentido relacionado à morte, como Atos 3:23, que faz referência à pena de morte em Israel (feita por apedrejamento), e Hebreus 11:28, que remonta ao anjo que matou os primogênitos egípcios.

E voltando a Isaías 66, este é o principal pano de fundo para Paulo em 2 Tessalonicenses 1:7-9, onde também se descreve a vinda do SENHOR em fogo para executar juízo. No livro de Isaías, Deus vem com fogo, espada e carros, como nos versículos 15 e 16, matando muitos desobedientes, o que remete a um contexto militar, em que o termo "oletros" também é frequentemente utilizado. No entanto, a destruição não resulta em extinção, mas em corpos queimando continuamente, mês após mês, conforme Isaías 66:23-24. Essa imagem de fogo perpétuo reforça a ideia de um castigo eterno e incessante para os ímpios, sem fim ou cessação.

Para mais aprofundamento sobre a palavra, eu também fiz uma pesquisa na literatura grega antiga (AQUI), e também é notório o frequente uso do termo neste sentido, principalmente em contextos militaresÉ bem provável que a destruição causada pela face seja apenas uma figura de linguagem para enaltecer o poder de Cristo, assim como a morte do Anticristo pelo sopro.

A perspectiva que abordo também se harmoniza perfeitamente com o contexto geral. O texto fala de uma destruição repentina e eterna. Na mentalidade aniquilacionista, que acredita ser eterna em consequências, seria anulada completamente a "paga tribulação' dos ímpios, por ser repentina. Logo, a única maneira de organizar a ideia é que seja repentina em relação ao surgimento e eterna em duração, e que essa tribulação esteja dentro desse período (que é infinito).

É claro que nenhum aniquilacionista aceitará que a destruição eterna, como morte eterna, seja ser separado para um estado de completa ruína causada pela manifestação do Senhor. Contudo, pelo menos esse era o pensamento de certos judeus dos primeiros séculos da era comum, como foi atestado acima, não é mesmo? Como se não bastasse, nem o contexto imediato, ajuda nossos amigos. Todavia, o que podemos sugerir para quem se nega a aceitar a verdade é que ele explique ponto a ponto as incoerências mostradas dessa vertente teológica com o resto da Bíblia. Uma destruição no sentido em que o aniquilacionismo apresenta não só extinguiria os ímpios como outras passagens da Bíblia as quais mostram os rebeldes à Palavra diante do trono para o julgamento.

Em conclusão, é evidente que a interpretação aniquilacionista deste texto não se sustenta diante de uma análise aprofundada das Escrituras. A ideia de uma "destruição eterna" como extinção completa dos ímpios entra em conflito com o contexto bíblico mais amplo, que sugere um sofrimento contínuo e consciente para aqueles que rejeitam a verdade. O próprio Cristo matará o Anticristo em Sua vinda (2 Tessalonicenses 2:8), mas este será lançado no lago de fogo, que um tipo de morte eterna segundo Apocalipse 20:14, onde será atormentado "para todo o sempre" (Apocalipse 20:10). Isso mostra que o lago de fogo representa não apenas a morte, mas um estado de tormento eterno, e não de aniquilação. Além disso, a literatura extrabíblica, como 4 Macabeus 10:10-15 e 13:14,15, confirma essa ideia, tratando o tormento eterno como sinônimo de destruição eterna. A destruição é causada pela manifestação gloriosa de Cristo, o que reforça a ideia de uma ruína perpétua e não uma simples extinção. O desafio para os que defendem o aniquilacionismo é conciliar suas crenças com as claras inconsistências ao se considerar todo o testemunho bíblico. A verdadeira destruição, conforme ensinada nas Escrituras, implica um estado de ruína, separação eterna de Deus, que também é um tipo morte eterna, mas não extinção, negando a punição contínua retratada nas passagens bíblicas.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O conceito de fogo eterno no século 2

O besteirol aniquilacionista do eterno em consequências

Aniquilacionistas mudam argumento em Mateus 25:46